Casca coça - Recordações de Um Tempo que Não Passou
- Container Blue
- 17 de jun. de 2021
- 2 min de leitura

Possivelmente não há conceito mais fascinante para o ser humano que o tempo. Desde a maneira aritmética e burocrata que inventamos para quantificar sua passagem até a forma debochada e inefável em que o universo segue se movimentando, artistas de todas as mídias possíveis já tentaram representar, entender, conceituar, capturar ou simbolizar o tempo, alguns com mais sucesso que outros, mas todos sabendo que por mais bela e completa que fosse sua obra, ela nunca seria tão monumental quanto o objeto de seu estudo, mas também tendo conhecimento de que a beleza e o prazer estão na procura e não no encontro, no caminho e não na chegada, no meio e não no fim. É exatamente com a proposta de não entender, mas de simplesmente representar um tempo que passou que não conseguimos mais reviver, e às vezes nem mesmo recordar, que o Container Blue lança o seu quarto single, Casca Coça. Sem fugir do estilo característico do grupo de grooves e distorções, seu mais novo lançamento bebe de uma fonte setentista para dar ainda mais peso ao seu já conhecido arsenal de riffs estonteantes que tornam ficar parado uma tarefa tão impossível quanto resgatar um tempo que deixamos passar sem aproveitar ao máximo o que ele nos pode oferecer. Na letra minimalista o autor entende o tempo como memória e o esquecimento como o fim. Se ainda mantivermos a lembrança de um tempo, ele pode não passar, pois estará constantemente vivo, sempre presente em nossas vidas. O esquecimento é a morte do tempo. Por outro lado, a eterna nostalgia de se reviver memórias pode fazer com que fiquemos presos ao passado e percamos a conexão com o presente, com o agora. Navegar esse canal sinuoso entre a recordação catatônica de felicidades efêmeras e o esquecimento sicário que soterra belezas melancólicas é o difícil e efêmero segredo para o equilíbrio. Equilíbrio esse que sabemos ser impossível de alcançar, mas passamos todos nossos momentos tentando, afinal a vida nunca é o destino, ela é sempre o percurso. Mais pesado e distorcido que os singles anteriores, o riff de Casca Coça emoldura com perfeição a temática do tempo passado com claras referências aos anos setenta. Se a letra fala de um tempo que vive ou morre ao sabor de nossas recordações, a música evoca um tempo em que o rock n roll se aperfeiçoava e desviava do pop descartável, se enveredando por melodias tão simples quanto duradouras, uma época resgatada por distorções de guitarra e grooves de bateria que transformam acordes e batidas em momentos de harmonias dissonantes que assentam acampamento na área mais prazerosa de nosso cérebro e ali prometem ficar enquanto houver lenha na fogueira de nossas paixões. Que a estrada lhe seja leve, independente do destino. Que o caminho lhe seja agradável, mesmo que a chegada tenha sido desvirtuada. Que a procura lhe renda frutos, mesmo que o encontro esteja infértil. Que o percurso lhe traga a paz necessária para encarar qualquer destino. Se a casca coçar, meu amigo, que nos sangre a alma! Que o tempo se esqueça de nós antes que nos esqueçamos dele.
Pedro Schmidt de Oliveira - 01/06/21
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